sexta-feira, 17 de junho de 2011

Índios amapaenses mantém suas tradições em reservas pacificamente demarcadas Ed 87

Cultura e História

Os índios amapaenses têm o privilégio de possuir todas as suas reservas demarcadas pacificamente, sem polêmica e sem invasão de garimpeiros, madeireiros e agricultores.Outro privilégio é viver melhor do que os indígenas de outras regiões do País, compara o antropólogo Antônio Pereira Neto, que chefiou a Fundação Nacional do Índio (Funai), na região.

O Estado, aliás, abriga oito diferentes etnias, distribuídas em 49 aldeias. Os índios estão devidamente organizados em três associações: Associação dos Povos Indígenas do Oiapoque (Apio), Associação dos Povos Indígenas do Tumucumaque (Apitu) e Conselho das Aldeias Waiãpis (Apina). Eles vivem em terras ricas em caça e pesca, ar puro e água limpa, mas trabalham em atividades diversas, algumas delas comuns aos não-índios. Além disso, eles são respeitados pela sociedade e bem assistidos por autoridades locais. A educação e a preservação da cultura desses povos têm sido preocupação constante do Governo do Estado, que mantém parceria com a Funai para lhes prestar todo apoio possível, inclusive na alfabetização em dialeto nativo.


O Estado do Amapá não tem medido esforços para elevar o nível de consciência sobre a importância dos índios prosseguirem com a sua trajetória histórica com amplo acesso à educação, saúde e a garantia da preservação de seus costumes e recursos naturais. Enfim, ao direito de ser cidadão num mundo que tanto fala sobre direitos humanos, ecologia e meio ambiente.
São cinco etnias que habitam o Estado do Amapá: caripuna, galibí, galibí-maruorno, palicur e uaiãpi, vivendo em várias aldeias, nas reservas Uaçá (42 mil hectares); Galibí (6.680 hectares); Juminã (42 mil hactares) e Uaiãpi (573 mil hectares). Os apalaís e os uaianas, que habitam o Pará e o Amapá, são menos aculturados, mas incluídos pela política indigenista brasileira, com assistência e proteção.

Os uaiãpis se organizam politicamente diferente dos demais índios do Amapá. O poder exercido pelo cacique é hereditário e o escolhido é preparado para o cargo desde criança. Cada cacique tem total autonomia para resolver seus próprios problemas, diferente dos índios do Oiapoque, que mantêm relacionamento entre aldeias. Apenas um determinado cacique, a exemplo de Wai-Wai, tem certa ascendência sobre os outros líderes uaiãpis, mas só nas questões da política externa com o não-índio. Aí, ele representa todas as aldeias da etnia, como aconteceu na luta pela demarcação, quando o cacique Wai-Wai viajou a Brasília e a Washington, em nome da etnia uaiãpi. Depois disso, ele voltou para sua aldeia, onde exerceu a função apenas de cacique. Cada aldeia, embora pertencendo à mesma nação, tem língua diferente da outra, no dialeto e sotaque. A escrita também obedece ao mesmo padrão, individualizada uma da outra.

O respeito mútuo é comum entre eles e, como seus antepassados, os uaiãpis vivem a tradição na mais perfeita harmonia com a natureza, que aprenderam a amar e a respeitar. Eles lutam para não perder a identidade cultural, apesar de mais de três décadas de contato com os não-índios. Ainda não usam na alimentação o açúcar nem o sal ou qualquer outro condimento industrializado. Têm divindades próprias e seguem fielmente aos rituais religiosos. Seus costumes pouco foram modificados até hoje e mantêm o sistema familiar de parentesco e a forma de ocupar o espaço físico onde habitam, como seus ancestrais.

A organização social uaiãpi está praticamente intacta. Não se casam com indivíduos de fora e praticam preceitos tribais de acordo com a tradição. A cultura está preservada com pequenas aculturações no uso de arma de fogo para caça, na utilização de facão e de machado de aço para abrir roças e picadas, além do uso de cobertor e mosquiteiro, com os quais se protegem do frio e dos carapanãs. Dos objetos do não-índio, o pente de cabelo é o mais apreciado. Outras novidades assimiladas são as vasilhas e panelas de alumínio para auxílio nos afazeres do lar. Aprenderam a garimpar, mas sem agredir o meio ambiente. Não usam mercúrio na garimpagem do ouro. A utilização de trados para extrair essências vegetais também foi assimilada pelos uaiãpis, que antes derrubavam árvores para tirar copaíba e outros óleos e essências.

Os uaiãpis estão em permanente aprendizado, entretanto sem perder a identidade cultural e o respeito pela natureza. Até bem pouco tempo, evitavam lavar vasilhas e limpar caça no rio, para não poluí-lo. Quando precisam, retiram a água para limpar o que for necessário, fora do rio. Para eles, as águas dos rios, igarapés e lagos são sagradas, por serem moradas dos espíritos.


Matar determinados animais também é considerado tabu, principalmente os que não lhe fazem mal ou não são necessários à sobrevivência do índio. Têm consciência do perfeito equilíbrio da natureza e só matam para comer. Matar um jacu, por exemplo, só se tiverem certeza de que não ameaça a extinção da espécie. Se a área é pouco habitada de uma espécie de ave, evitam matá-la e buscam outra mais abundante. A suprema sabedoria, e marca registrada da vida social dos uaiãpis, diz que cada indivíduo deve conhecer o seu papel na aldeia e a divisão de trabalho, que são indissolúveis de sua cultura.

Os uaiãpis mantêm a tradição familiar. Os casamentos são feitos sob negociação entre as famílias, sem influência do futuro casal. Os preparos começam quando ambos ainda são crianças. Por isso a relação amorosa do casal passa a ser conveniência familiar, envolvendo negociações dos pais. Para um casal ficar junto, depende das famílias de ambos, que conversam e trocam bens. Porque quando um jovem índio se casa, vai morar na casa dos pais da moça, até nascer o primeiro filho. A saída do rapaz da casa dos pais é tida como grande perda, porque ele passa a trabalhar para o sogro. Este, por sua vez, o tem sob domínio até o nascimento do primogênito, quando poderá construir casa própria e viver sozinho com a mulher. Neste ínterim, o sogro pode achar que o genro é preguiçoso e separá-lo da filha. Depois de nascer um filho é bem mais difícil a separação.

O conceito cristão de virgindade não existe entre os índios uaiãpis e o ciúme também não preocupa. As meninas, após a primeira menstruação, entre 11 e 13 anos, passam pelo ritual de passagem, a partir do que ficam prontas para se casar.
Solteirão numa aldeia é considerado homem infeliz, porque os papéis sociais masculino e feminino são bem definidos. A divisão de trabalho entre o homem e a mulher é bem clara e sem meio termo. Na roça, o homem derruba, queima e prepara a terra, mas quem planta, zela, colhe e faz a farinha ou beiju é a mulher. Quem não tem uma mulher numa aldeia uaiãpi morre de fome, porque homem não faz trabalho de mulher. Não é papel masculino plantar, colher e cozinhar. Por isso, é fundamental o homem ser casado. Os rapazes são criados somente para caçar, pescar e roçar.

Antigamente, o pai matava o recém-nascido quando a mãe morria, porque ele não podia amamentar o bebê. Hoje, porém, após o contato com a sociedade moderna, os parentes mais próximos já cuidam da criança nesta situação. Sem dúvida, este é um mundo encantado de seres humanos que, apesar de viverem perto da civilização e com esta mantendo contato, preservam a sua cultura centenária, prenhe de sabedoria. Só não sabemos até quando.   

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